sexta-feira, outubro 27, 2006

A «CARTA A ZECA AFONSO» de José Jorge Letria*

Em várias ocasiões, tenho afirmado: há poetas que o são antes do verso. Emprestam à vida uma autencidade, uma entrega de tal modo absoluta que, depois, ou lhes lêem a obra como corpo vivo, palpitante, de sangue a correr nas veias (e o critico tenta apreender a essência, o que há de pessoal no texto poético), ou, como cadáver que dissecam, retalham-no para alargar a investi¬gação pretensamente científico-formal.
Tenho para mim que os poetas José Afonso e José Jorge Letria são dos que, por múltiplas vivências, atingiram o grau do mistério, do mistério indecifrável da poesia.
José Jorge Letria muito cedo terá descoberto que a POÉTICA é a sua linguagem essencial e que ela é a linguagem privilegiada da comunicação entre os seres.
Cedo, terá partido em busca da autenticidade pela palavra.
Encontrar no homem a epopeia universal da sua humanidade.
O gesto e a palavra sinceramente unidas através da lin¬guagem simbólica onde o Mito e o Rito se sustentam, tê-lo-ão conduzido ao labirinto da verdade, onde a decifração dos mis¬térios o levam a descobrir, na voz de Zeca Afonso (...) o ouro da quimera/a memória branca do sul a do cerimonial das cantigas/ habitadas pelo mistério do vento, l pelo júbilo da fraternidade.
Nesta caminhada de redescoberta do sagrado e do simbóli¬co, neste tactear a decifração dos mistérios que as dúvidas clareiam, o autor revela-nos o mistério da totalidade.
Em José Jorge Letria (e esta carta revela-o claramente) há como que uma passagem do profano para o sagrado, da prosa para a poesia. A da transformação do adulto-criança - o de regresso a uma idade primeira - a da consciência adulta da essencialidade poética da infância.
Por isso há (..,) os trovadores da errância galaico-por-tuguesa da festa da palavra e uma Coimbra a tocar as recor¬dações e as chagas/de um tempo fraterno e torturado.
Letria sabe que a voz de Zeca pedia ... as vozes que subis¬sem com a dele. E com ele vinha a lucidez cantante/dos pescadores da Fuzeta/dos descobridores de verdades etemas(...).
Nesta evocação há, como já referi, a passagem do profano para o sagrado, a entrada no grande templo poético dos homens e mulheres de boa vontade, em uníssono, partilhando o momento.
Carta a Zeca Afonso para além de um acto de amizade ver¬dadeira, é o resultado da necessidade que o autor sente de que todos participemos nos grandes mistérios da vida que as coisas simples revelam.
Não reduzir o ser ao dizer. Não transformar a vida em roti¬na ou em academismo conformista e burocrático. Dar à vida o que a vida nos pede:
Futuro, o destinatário e remetente de todas as saudades.
* Jornal de Coimbra, 29 de Setembro, 99