sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Há oito anos foi assim…

Entre dois males voto no mal menor: sim


CARTA ABERTA AO SENHOR BISPO DE VISEU, PRESIDENTE DA COMISSÃO EPISCOPAL DA FAMÍLIA, D. ANTÓNIO MONTEIRO.


Na minha condição de cidadão português, dirijo-me ao representante da sagrada hierarquia da Igreja Católica, usando da liberdade que as leis da República Portuguesa me concedem.
Na qualidade de Presidente da Comissão Episcopal da Família, tem o senhor Bispo proferido algumas afirmações críticas a respeito do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez merecedoras da maior atenção para quem procura não passar distraído pela vida.
Afirmações do tipo todas as mães do País vão ficar com a imagem de assassinas sobre a cabeça, ou quem votar favoravelmente ao aborto não é cristão, o que representa ter que sair da Igreja, de terrorismo verbal, associado a uma linguagem futebolística que compara o sim de um católico à despenalização a ser benfiquista ferrenho e ir ao seu estádio gritar pelo Porto são reveladoras do desnorte em que o sector mais conservador da Igreja católica se encontra, e a extrema dificuldade que demonstra em conviver com cidadãos moralmente livres, capazes de afirmarem o seu desacordo para com a velha hipocrisia salazarista.
As afirmações do senhor Bispo pretendem assustar homens e mulheres, castigando-os ao fogo do inferno, reduzindo-lhes a capacidade de afirmação de consciência pessoal, num estilo muito próximo da actuação da Igreja no Estado Novo, denunciada pelo Senhor D. António Ferreira Gomes, numa corajosa atitude cristã, revelando as cumplicidades que definia como unidade de corpo e alma.
As apreciações do senhor Bispo D. António Monteiro parecem proferidas por um velho apedrejador de Madalenas, incapaz de entender que este referendo serve para revogar um artigo do código penal e não uma lei canónica da Igreja.
O que choca é o aproveitamento que o Senhor Bispo faz da História, comparando a lei do aborto com o holocausto Nazi, e outras barbaridades, quando sabemos que foi Hitler quem decretou a pena capital para os autores do aborto, com o fundamento racista de tal acto afectar a vitalidade do povo alemão.
O Senhor Bispo de Viseu representa a velha cultura da obediência, do «come e cala», que não se adapta aos regimes democráticos, abertos, suficientemente laicos, para fazerem do diálogo o seu fundamento.
Se o não do Senhor Bispo vencer, estou certo que desenvolverá uma prática caritativa a favor da mulher, num gesto paternalista de quem procura continuar a existir numa sociedade desigual.
Saiba o senhor Bispo de Viseu que ninguém será obrigado a praticar o aborto caso o sim vença, nem ninguém será no exercício da profissão obrigado, em contradição com os seus critérios morais, a ajudar a fazê-lo, recorrendo à objecção de consciência.
O referendo sobre a despenalização do aborto é o primeiro, o mais importante, porque se dá a interferência da esfera do privado na esfera do público, carregando o voto de um significado em que a consciência vital se revela.
A separação entre o Estado e a Igreja é uma inequívoca conquista civil que o senhor Bispo deseja pôr à prova.
O 25 de Abril provocou profundas mudanças na sociedade portuguesa, e o senhor Bispo tenta, a todo o custo, negá-las.
A História não anda para trás.
Nos países em que a questão do aborto foi referendada, como Itália, os efeitos da lei sobre a interrupção da gravidez revelaram-se positivos: diminuíram o aborto legal e o clandestino.
Não querendo associar as afirmações do senhor D. António Monteiro ao medo que terá em perder uma parcela do seu poder totalitário (manipulador de consciências) com a vitória do sim, livremente assumido, felicito-o pela extrema sinceridade com que o fez.
Não deixo, no entanto, de me surpreender com o interesse subitamente manifestado pelo senhor Bispo quanto à temática da maternidade e seus problemas reais, porquanto a Igreja na sua História, sempre penalizou sexualmente a mulher.
Ainda hoje, a opinião oficial da Igreja vê com desconfiança a educação sexual e condena sem piedade o uso de contraceptivos.
Infelizmente, a Igreja Católica continua a marcar o nosso tempo contra o tempo nosso.
A 16 de Julho de 1968, D. António Ferreira Gomes, em carta ao senhor Cardeal Cerejeira, afirmou ter Salazar contado com a Igreja Católica para variadíssimos fins, desde: o pastoreio das almas e consequente gestão da consciência católica; a defesa da política governativa junto da Santa Sé; a bênção dos soldados na guerra colonial e em muitas e diversificadas solenidades e inaugurações, consagrando-as.
Hoje, o Estado e a Igreja não vivem dessas cumplicidades.
É imperativo reclamar do Estado democrático, que cumpra as suas obrigações em todas as áreas, não esquecendo as obrigações em matéria de planeamento familiar, vida e higiene sexual; e da Igreja espera-se que continue a sua caminhada de regresso ao nível dos homens e das mulheres em luta por uma vida melhor, ao lado de todos quantos, guiados pelos ensinamentos de Cristo, anseiam por um amor infinito.

Jornal de Coimbra, 17 Junho, 98

1 Comments:

Blogger César Augusto said...

Tambem acho que a igreja anda sempre a marcar o nosso tempo contra o tempo nosso. Os valores da igreja parecem sempre andar 200 anos antes de qualquer tempo, numa tentativa falhada (nem sempre) de manter o tradicionalismo.

your pupil, brazuca

12:41 da tarde  

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