domingo, janeiro 07, 2007

Unamuno e Torga, irmãos carnais da Ibéria

Destes dois sentidores maiores da Ibéria, destaca-se o gosto que ambos dedicaram aos poetas que manifestam o sentido profundo e religioso da existência: Leopardi, Antero de Quental, Shakespeare, Byron, Dante e muitos outros.
Em ambos, o Homem e o problema da imortalidade marcou as respectivas obras.
Em nenhum deles o sentimento religioso aceitou alguma ortodoxia, nem mesmo a católica.
Tanto em Torga como em Unamuno, a religiosidade manifestou--se pela ansiedade, pela angústia, pela inquietação. A religiosidade sentida como a sublimação do que há de mais fundo no Homem.
Em Unamuno, a afirmação de Torga — medularmente religioso, faltava-me, contudo, humildade e credulidade para. me prosternar e acreditar —, assenta como se ela lhe pertencesse.
Do ponto de vista religioso, Unamuno e Torga são heréticos porque não professam uma opinião corrente, antes particular. Ambos defendem o princípio de que cada homem deve ser considerado como um fim em si mesmo.
Quanto à moral e à religião, ambos entendem que o seu valor acontece somente quando o homem age por um sentimento de dever. Diz-nos Unamuno: E que, no fundo, ética é uma coisa e religião outra1
Torga subscreveria esta afirmação, afirmando que na ética, melhor, na moral, ser bom não é o mesmo que praticar o bem.
Não será difícil imaginar com que entusiasmo Torga terá lido: O homem — substantivo concreto, o homem de carne e osso, aquele que nasce, cresce, e morre — sobretudo o que morre —, aquele que come e bebe e joga e dorme e pensa e quer, o homem a quem vemos e ouvimos, o irmão, o verdadeiro irmão?2
Ambos gritam com todas as veras da alma que o singular não é particular, mas universal.
Nos dois poetas peninsulares, Deus, a liberdade e a imortalidade preenchem por completo o universo das suas preocupações.
Em ambos a Razão e a Vida leva-os a não aceitarem Deus pela razão mas a tomarem-no verdadeiro pela vida. De ambos apetece fazer o seguinte comentário/ — é preciso ter muita fé para se descrer assim/Não aceitam a existência concreta de Deus, mas sentem-na.
Como Unamuno, Torga proclama que o lugar de Deus não é na terra. O que o diferencia de Pascoaes, poeta maior de Portugal e grande amigo de Unamuno, que considerava tudo estar na terra impregnado do espírito de Deus.
Em Torga a dádiva de si parte do seu individualismo sem transigências, tal qual como em Unamuno.
A Torga e a Unamuno faltou-lhes a humildade para venerarem sem entenderem, como a fé na capacidade da razão humana para chegarem a entender.
Ambos anti-racionalistas, crentes de um Deus do coração (para Torga o Deus Menino), famintos de imortalidade e amantes da natureza. Em ambos a contradição de procurarem a religião que liberta sem estar sujeita a dogmas e sendo individualista.
Dilacerados pela razão e pela fé, Torga e Unamuno vivem esses dois enigmas que se sustentam um do outro.
Para ambos, o cristianismo é o individual radical, sendo a individualidade o que há de mais universal.
Em ambos o sentimento trágico da vida. Em ambos essa agonia de não saberem o que é morrer. Para Unamuno, morrer é (des)nascer. Assim solucionou o humanista basco o seu problema sem solução. Regressar ao útero, ao nirvana, ao nada, ao seio-mãe da natureza. Para Torga, é chegar ao fim.

Confidencial

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitado.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros,agendado,
Sem nada perguntar,
Vê,
sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.3

NOTAS:

1 A Agonia do Cristianismo, Editora Arcádia, 1a Edição cm Português, Lisboa, 1975, pág. 79.
2 Miguel de Unamuno, Da Sentimento Trágico da Vida, Editora Relógio d'Água, Lisboa, 1988,pág. 7.
3 Diário (Décimo Sexto Volume), Coimbra, 1993, pág. 142.