quarta-feira, setembro 20, 2006

Miguel Torga e a África Portuguesa*


Abordar o tema Miguel Torga e a África portuguesa é tarefa que, pelo seu ineditismo, se me afigura de interesse no campo dos estudos torguianos.
Quem tenha percorrido alguns quilómetros da obra do poeta de S. Martinho de Anta, terá encontrado, por certo, ao longo do percurso, em todas as suas vertentes
(poesia, teatro, ensaio, conto, romance, prosa diarística) homens de carne e osso com suas idiossincrasias, mas sobretudo homens e mulheres sem outra condição.
Fragilizado na sua condição de mortal, o homem torguiano aspira a uma autenticidade que tantas vezes choca o leitor pela rudeza, aproximando-o do bicho, mas singularizando-o na inteireza dos seus actos.
As suas personagens encerram (utilizando uma expressão de Fernão de Magalhães gonçalves) “toda a moral, toda a lei, toda a justiça, toda a doutrina” (1).
O indivíduo é um absoluto em confronto com outro absoluto.
No poema Sísifo, Torga revela-nos a matriz da sua obra literária, indissociável da sua vida:

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto querias só metade.
E nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.(2)

Esta loucura lúcida, esta manifestação de liberdade individual projecta-a Miguel Torga no colectivo pátrio num outro poema A Largada de Poemas Ibéricos, em que os pinhais se transformam “ em frágeis caravelas”:

Pátria - Mãe - Viúva que ficava
Na areia fria aos gritos e aos gemidos
Pela morte dos filhos que beijava.(3)

Mas a empresa era a da vontade de um Povo inteiro, a

Do grande sonho que mandava ser
Cada homem tão firme nos seus pés
Que a nau tremesse sem ninguém tremer (4)

É a firme vontade de quem grita, num outro poema, a Vasco da Gama:

“Somos nós que fazemos o destino” (5)

Já há alguns anos escrevi que em torga as personagens são ele mesmo, e que o segredo da sua escrita, “reside em dar às coisas qualidades ocultas, sentir da Pátria as pulsações e ouvi-la em confissão, recriando-a - o cumprimento da sua vocação de homem e de artista, o seu destino de poeta”. (6)
A este propósito recorro a um outro poema, portugal, do Diário X.

Avivo no teu rosto que me deste
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura, serás sempre o que sou.

Eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço
Cavo, remo, imagino
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço.

Teimoso aventureiro da ilusão,
surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro
Mais alto ainda do que no passado” .(7)

Esta autenticidade, esta íntima relação com a Pátria, levá-lo-à às terras distantes do império colonial português em busca das pegadas cristianizadoras que arredondaram o mundo e das obras que justificassem a nossa presença nessas paragens.
Quando o escritor nos diz que “Temos de conhecer a nossa terra. Mas conhecê-la por dentro, sem preocupações históricas, arqueológicas, políticas ou outras. Conhecê-la como se conhece a mulher que se ama, com quem se dorme e com quem se repartem as alegrias e as tristezas” (8), está a declarar um amor íntimo e ilimitado que o levará de avião à cidade de Luanda, na esperança de voltar “ (...) outra vez a ser criança a desembarcar no Rio de Janeiro” (9).
E interroga-se, interrogando-nos:
“Teríamos realizado ali também um segundo Brasil, enobrecendo o planisfério com mais uma gigantesca e fraterna comunidade multirracial? (10)
A questão guiar-nos-à pelo tema.
Sigamos, pois, o Torga na interrogação que, aos poucos, se dissipará em contacto com a realidade.

Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
É esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da aventura
De me procurar...(11)

Angola

As primeiras impressões do contacto com o solo e gentes angolanas deixavam no ar alguma esperança, a de vir a encontrar na acção portuguesa o que achara no Brasil aquando da sua estadia como trabalhador na fazenda do seu tio – “ Terra de encontros de raças, que permitiu a mística e maravilhosa comunhão de sangues que o mundo conhece e admira” (12).
Em Luanda “ Brancos e pretos pareciam mover-se no mesmo afã na gare e nas ruas (13).
Mas adianta, cauteloso:
“ A luz do neon, a espectalizar as formas e os gestos, fazia esse milagre” (14).
E vinham-lhe, de novo, à memória, os tempos de menino:
“Voltava outra vez a ser criança e a desembarcar no Rio de Janeiro. O mesmo calor húmido e pegajoso, a mesma convivência de sangues, a mesma pronúncia amestiçada...” (15)
Tudo se havia passado a altas horas da noite e “ Só no dia seguinte (...) é que a verdade se mostrou na sua trágica nudez. Rodeada de bairros miseráveis onde a vida destribalizada dos moradores parecia ter perdido toda a coesão social, a cidade lembrava uma Sodoma de irresponsabilidade cercada de maldição.” (16)
Vintes anos antes, Torga declarara numa conferência proferida no Centro Transmontano de São Paulo que “ O Universal é o local sem paredes. É o autêntico que pode ser visto de todos os lados, e em todos os lados está certo, como a verdade.” (17)
Mas aqui a verdade era outra:
“ Os muceques de Luanda são bairros de lata de Lisboa. Em ambos se processa a mesma dissolução humana.” (18)
Abandona a grande cidade e vai procurar em centenas de quilómetros que percorre diariamente, um sentido para a nossa história colonial e para o futuro que adivinhava:
“ Mas enchia apenas os olhos de solidão genesíaca e a alma de amargura.” (19)
As novas realidades eram as das velhas injustiças “ (...) cidades cresciam de longe em longe, tentaculares e floridas. Mas sempre implantadas num descampado imenso e rodeadas da mesma miséria suja e prosmícua.” (20)
Em Luanda, o poeta sentia-se “ (...) intruso, rejeitado, excluído, com a impressão incómoda de que, se morresse aqui seria mais facilmente comido por dois abutres que me espreitassem da ponta de um galho seco do que pela terra da sepultura.” (21)
É numa visita a uma roça, a que o escritor se refere como sendo modelar, que a segregação racial se torna mais evidente: “(...) um abismo intransponível espacial e temporal, separa a casa grande da senzala.
indígena não faz parte da família. Ficou longe dos afectos, dos sentimentos, da fraternidade, e até, da sensualidade. Do amor, numa palavra. Isolado na sua aldeia, segregado, é uma máquina útil que no fim do trabalho recolhe à arrecadação.” (22)
No Lobito um monumento a Luís de Camões merece do escritor o seguinte comentário: “ (...) o épico a enfunar o peito heroico diante do analfabetismo indígena; a força da ocupação fortificada e celebrada; e a exploração colonial com as letras todas.” (23)
No deserto de Moçâmedes “ Rochas que parecem fantasmas, plantas que parecem bichos, bichos que parecem plantas, carcaças, rastros, silêncio.” (24)
Era a “ (...) imagem física da eternidade morta.” (25)
Em Sá da Bandeira, ao contemplar, de novo, os monumentos não consegue evitar que a imaginação os não derreta e os molde num futuro próximo por conta doutras glórias. Por conta de muitos Gungunhanas que esperam também a sua consagração.” (26)
Torga apercebe-se do absurdo do momento.
Teimosamente agarrados a um passado a que o presente não prometia futuro e certos de que a força das armas acabaria por lhes dar razão “ Por um lado, queriam à terra angolana do fundo do coração, por outro, não compreendiam que só em comunhão total com o indígena, a entender e a respeitar o seu património religioso, cultural e até material poderiam permanecer nela para sempre, cidadãos na pátria comum”. (27)
Torga é, nesta visita, o observador penetrante da inconsciência colonial.
Após a visita “ (...) à ponta do Zaire que o nosso conterrâneo Diogo Cão pisou pela primeira vez (...) fiu ver o que se passava na costa do índico”. (28)


Moçambique

Segregado por quinhentos anos de incompreensão racial, Torga procura o poema de um lugar capaz da fraternidade, onde o futuro erguesse o seu cântico.
Talvez do lado de lá fosse visível outra intenção...
“Desgraçadamente, o mal aí redobrava, desde a segregação, ao desnível económico, à escassa difusão da língua aglutinadora. As cidades cresciam também escaroladas e alinhadas entre muceques desordenados e sombrios, os monumentos proclamavam ainda mais ostensivamente o domínio branco, os espaços desabitados eram infinitos, não se descortinava de norte a sul da província a vontade de construir uma pátria original alicerçada em valores locais e enriquecida por valores carreados” (29).
Na Beira, assalta-o a enexistência de “ (...) um espírito de missão” (30).
A realidade angustia-o “ (...) mais pelo que falta de um generoso projecto colectivo do que pelo que existe ao abrigo de um jogo de egoísmos mal articulados” (31).
Uma das velhas paixões do poeta era a caça. Esses momentos venatórios, que, na sua terra o levaram a calcorrear montes e vales no rasto de uma perdiz, impeliam-no agora para a Gorongosa onde existiam “Bichos de todas as formas e feitios lado a lado, o hipopótamo enterrado nos charcos, o abutre empoleirado nos galhos, o crocodilo a flutuar nas lagoas, o búfalo a pastar nas clareias, o elefante abrigado nas ramas, a serpente enroscada nas sombras. (...)
E tudo numa abundância primordial, aos bandos, às manadas, aos enxames.” (32)
E de novo assaltam-lhe à memória os tempos do Brasil:
Aí “ A fauna desaparecia diante do esplendor arbório. Aqui, a clorofila deu lugar à proteina.” (33) Ainda na Gorongosa, o poeta, mais uma vez, dará de caras com um exemplo superior de incompreensão étnica:
“ Por muito que viva nunca esquecerei o pasmo irónico de três mulheres aborígenes, que não entendiam uma palavra de português, e o olhar oblíquo de um bando de homens sentados à roda da caçoila de fuba, enquanto nós nos banqueteávamos. Caras estranhas, enigmáticas, onde a minha má consciência lia o ódio, e talvez espelhassem apenas a instintiva desconfiança em qualquer natural por um semelhante que o não é. Entre mim e aqueles irmãos de espécie abria-se um abismo intransponível com quinhentos anos de largura.” (34)
desencanto ia ganhando dimensão dentro do poeta e como um mineiro da alma sondava a nossa incapacidade:
“ com um mapa geográfico numa das mãos e a espada pacificadora na outra, atravessámos os séculos na paz de espírito dos justos, sem cuidarmos de descer às funduras da alma indígena e de lhes perscrutar os recantos enigmáticos.” (35)
Em Cabora Bassa, o seu instinto de aldeão, respeitador dos velhos costumes comunitários, simbolizados, entre nós, na vara da justiça, ou no forno do povo, mereceu-lhe o comentário num instinto nuclear de sobrevivência irremediavelmente condenada:
“ Aqui como em Vilarinho da Furna, como em Assuão, como em toda a parte. (...) Um lago imenso vai deixar sem deuses, sem mortos, sem berço e sem memória milhares de criaturas. Milhões de pulsações cardíacas trocadas por milhões de quilovátios” (36).
Como referi no início, vislumbra-se nas observações que o poeta vai fazendo durante a sua viagem que o negativo das situações não o deixava árido de esperança. Era a vontade prometeica aliada a uma natural persistência trágica sisifana, que lhe prometiam o momento da luz. Sísifo haveria de chegar ao cume da montanha rolando a sua pedra, e Prometeu não deixaria de revelar a luz.
Tinha chegado o momento. Na Ilha de Moçambique Torga reencontra, finalmente, o equilíbrio:
“Louvado seja Deus Nosso Senhor! Até que enfim posso regressar sossegado, com a viagem justificada em todas as minhas exigências de homem e de Português” (37).
E o escritor acrescenta, radiante:
“ Como num tubo de ensaio, todas as combinações e reacções humanas tinham sido levadas a cabo no pequeno recife. A Europa, a África e a Ásia, entrelaçada na arte, na cultura, na vida e na morte. Cristo de mãos dadas com Maomé, a Tora ao lado dos Evangelhos, o vestido a saudar o sari e a capulana (...) contradições que pareciam insolúveis, revolvidas em perfeita harmonia. Na arquitectura, nas crenças, nas relações. O espírito soubera encontrar naquelas paragens o denominador comum dos critérios mais inconciliáveis.
Ali, sim, Camões podia legitimamente abrir o peito épico às brisas, D.João de Castro calcular os desvios da agulha de marear, S. Francisco Xavier deixar no chão pegadas da sua caminhada cristianizadora. (...) Aquele baluarte de fraternidade respondia pelo futuro ecuménico de Portugal” (38).
De olhos consolados, Torga despede-se de África. Não sem antes dialogar com um resistente nacionalista “ Inteligente, frio e peremptório. Cada palavra que saía da boca parecia uma punhalada. (...) Tudo na óptica dele, estava errado na África portuguesa” (39).
O poeta responde-lhe recorrendo a um episódio em que tinha sido um dos protagonistas num congresso de escritores, em S. Paulo:
“ Um camarada brasileiro apostrofava a colonização portuguesa, que desejaria mil vezes trocada pela holandesa. E, quando a assistência esperava de mim um protesto indignado, apenas a pensar no que seria o meu desespero se me visse na triste situação de ouvir coisas assim em flamengo... Mas, felizmente, oiço-o em português...” (40).


Conclusão


Tudo o que se possa dizer em jeito de conclusão desliza inevitavelmente para a redundância.
Torga possui a rara qualidade que fez o escritor: a de escrever com a maior economia de palavras o mais rico e profundo dos mundos e conceitos.
É possível que eu tenha falhado nos passos desta viagem, mas estou certo que o poeta, esse , não falhou.
Foi como poeta que Torga sentiu a África portuguesa, e foi como português do Mundo que sofreu o pesadelo da nossa falência civilizadora.


Carlos Carranca

*Publicado em livro pelas edições Universitárias Lusófonas e integrando um conjunto de textos publicados com o título “Torga, O Bicho Religioso”, pela Universitária Editora.

Notas


1 - Fernão de Magalhães Gonçalves, “Sete Meditações sobre Miguel Torga”, Coimbra, pág. 100.
2 - Publicado em Colóquio/Letras 43 ( Maio de 1978) pág. 66 e depois incluído em Diário XIII, pág.20.
3 - Miguel Torga, Poemas Ibéricos, 2ª ed., Coimbra, pág.22.
4 - Op. cit., pág. 22.
5 - Op. cit., pág. 44.
6 - Carlos Carranca, Torga, o português do Mundo, Coimbra Editora, 1988, pág. 53.
7 - Miguel Torga, Diário X, págs. 18/19.
8 - Miguel Torga, Diário X, Pág. 60.
9 - Miguel Torga, A Criação do Mundo, O Sexto Dia, pág. 165.
10 - Op., pág. 165.
11 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 9.
12 - Miguel Torga, Traço de União, Coimbra, pág. 14.
13 - Miguel Torga, A Criação do Mundo, O Sexto Dia, pág. 166.
14 - Op. cit., pág. 166.
15- Op. cit., pág. 165.
16 - Op. cit., pág. 166.
17 - Miguel Torga, Traço de União, pág. 69.
18 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 24.
19 - Miguel Torga, A Criação do Mundo, O Sexto Dia, pág. 167.
20 - Op. cit., pág. 168.
21 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 12.
22 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 15.
23 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 24.
24 - Miguel Torga, A Criação do Mundo, O Sexto dia, pág. 167.
25 - Op. cit., pág. 168.
26 - Miguel torga, Diário XII, pág.12.
27 - Miguel torga, A Criação do Mundo, O Sexto Dia, pág. 170.
28 - Op. cit., pág. 171.
29 - Miguel Torga, DiárioXII, pág. 27.
30 - Op. cit.,pág. 27.
31 - Op. cit.,pág. 27.
32 - Op. cit.,pág. 28.
33 - Op. cit.,pág. 28.
34 - Op. cit.,pág. 29.
35 - Miguel Torga, A Criação do Mundo, O Sexto Dia, pág. 175.
36 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 31.
37 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 31.
38 - Miguel Torga, A Criação do Mundo, O Sexto Dia, págs 176/7.
39 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 33.
40 - Miguel Torga, Diário XII, pág. 33.

7 Comments:

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