quarta-feira, abril 21, 2010

Zé Guimarães, “o Penetra”

Por António dos Santos e Silva


Na minha querida turma D, do liceu D. João III (1946/47/48) – aquela turma foi uma outra espécie de família, a dos grandes amigos/emoções adolescentes; o período da minha vida estudantil que mais saudades me deixou – havia moços fabulosos que jamais esquecerei: o Carlos Couceiro, o Zeca Afonso, o Eduino Lopes, o António Costa Lobo, o Manuel Nemésio, o Aurélio, o Zé Guimarães, e outros, cada um com sua marca e fantasia… Mas hoje vou tentar evocar o último referido: o Zé Guimarães, “o Penetra”! Basta ocorrer-me o nome para que a sua figura impressiva me encha o ecrã da memória: alto, desempenado, cabelo negro brilhante, bigodinho cinéfilo à Errol Flynn, cheio de força e vitalidade – um corpo soberbo e atlético, por fora; um garotão ingénuo, por dentro.
Começo pela origem do cognome “o Penetra”? Foi o dr. Sílvio Pélico (nosso prof. de Historia) que lho pôs. O Zé Guimarães era useiro em chegar atrasado à aula, batia à porta e perguntava: «Posso penetrar?» E o dr. Sílvio Pélico respondia: «Penetra!»:
Era o mais velho de nós (reprovara várias vezes), natural de Sá da Bandeira (Angola), e tinha a descontracção habitual dos ultramarinos e um físico esplêndido: fazia o pino numa só mão no peitoril da janela, era defesa central (intransponível) na equipa de futebol júnior da Académica, fechava as portas com uma tremenda pancada da testa (outro qualquer cairia redondo)... As “garotas” adoravam-no (sobretudo quando ele vestia a batina nova, que o transformava num quase manequim-Adónis), e chegou a ser nosso “chefe de turma” , em eleições “democráticas”. Estou a vê-lo – que cenas impagáveis! – a desempenhar essa “importante” função: com um fingido ar compenetrado, esperava à porta a entrada do prof.; cumprimentava-o numa enfática reverência, mas, mal o prof. passava, dirigindo-se à secretária, logo o Zé Guimarães se transformava: ia atrás dele a fazer momices e caretas, com as mãos ao alto, fingindo que lhe dava murros na cabeça e lhe apertava o pescoço… Era de rebentar a rir (eu, que estava na fila da frente, tinha de apertar o nariz, apopléctico…).

E aquela peripécia do reitor e do carpinteiro! O reitor, o dr. Guerra, pequenino e empertigado (entre a malta, o “Cu d’Onça”) foi à aula admoestar a turma porque, numa brincadeira de intervalo, alguns tinham partido o tampo duma carteira; o carpinteiro fora lá consertá-la e deixara a caixa da ferramenta, para concluir o conserto no próximo intervalo. O senhor reitor chamou pelo “chefe de turma”. O Zé Guimarães levantou-se, aprumado como soldado em parada. Então, o dr. Guerra passou-lhe uma severa reprimenda, responsabilizando-o por tão grave ocorrência. O Zé Guimarães, em sentido, recebeu a diatribe, atento e compungido. O senhor reitor, descarregada a fúria, retirou-se. Acto contínuo, o Zé Guimarães pegou no martelo do carpinteiro e dirigiu-se para a porta. «Onde é que vai?» – perguntou o prof. «Martelar o senhor reitor!» – foi a resposta. Claro que não martelou ninguém, mas saiu e já não regressou naquela manhã...

O Zé Guimarães foi, certa vez, passar umas férias a Setúbal (tinha por lá familiares) e arranjou uma namorada. Enlevado, descrevia-a qual ninfa descida do Olimpo ou estátua grega. Contou-nos, de olho húmido, a romântica despedida no cais da estação. Ela, além da beleza, era duma inteligência rara (aluna do “quadro de honra”), e escrevia-lhe longas cartas literário- -amorosas. O Zé Guimarães queria retribuir-lhe na mesma moeda mas não conseguia. Pediu-nos auxílio – a mim, ao Zeca Afonso, ao Abreu Lima… Íamos para o quarto dele (próximo do liceu) ler as cartas dela, combinar e discutir as respostas e… comer as bolachas que ele guardava numa caixa de lata, na mesinha de cabeceira, junto ao “penico” de loiça. Saíram-nos coisas verdadeiramente surrealistas! Cada um dizia a sua frase e o Zé Guimarães dava murros na testa para resumir e cerzir aquelas frases pomposas, “shakespeareanas” – imagine-se… Felizmente que tal “paixão eterna” não resistiu muito tempo, morrendo de exaustão ao cabo de um mês.

Comigo, também se passou uma cena engraçada, amoruda. Apaixonei-me (uma paixão fulminante, um coup de foudre) por uma mocinha que andava na turma A. Naqueles tempos suspicazes, a separação dos sexos era uma obsessão, e por isso, o recreio das meninas ficava no terraço do telhado: das janelas do corredor, víamo-las passear lá em cima, longínquas, entre nuvens. Pois um dia, cometi a imprudência de dizer ao Zé Guimarães que “andava atrás” daquela – e apontei-lha –, que se chamava Joaquina Maria. Então o Zé Guimarães, com a sua força bruta, pegou em mim, pôs-me no peitoril da janela com as pernas para fora, a espernear, e desatou a berrar: “Ó Jaquininha, olhò Santos Silva, olhò Santos Silva!” Foi um alvoroço e um gozo, mas eu fiquei furioso…

E, daquela vez, na comemoração do Dia da Restauração! O senhor reitor foi o orador e o anfiteatro encheu-se. O Zé Guimarães, dos últimos a entrar, ficou em pé, por falta de lugar. O reitor, querendo ser simpático e “próximo dos alunos”, chamou-o para uma cadeira vaga, na mesa da presidência; à frente dele ficou o copo de água habitual. O reitor começou a prelecção patriótica, acalorando-se, pouco a pouco: 1140! – o começo da nacionalidade; 1385! – Aljubarrota; 1580! – a perda da independência; 1640! – a Restauração!... – cada uma dessas datas sagradas era repetida três vezes, em tom de epopeia, seguindo-se um silêncio profundo, litúrgico, antes de retomar a dissertação. Nesses momentos, enquanto o reitor olhava solenemente para o alto, o Zé Guimarães deitava a mão ao copo e bebia um golo de água. Quando o reitor quis “molhar a palavra”, o copo estava vazio! … A “malta”, que assistia à cena, torcida de gozo, ficou em suspense… – e agora? Mas o reitor, emocionado (com o heroísmo dos Conjurados e a vilania do Miguel de Vasconcelos), prescindiu do líquido e da averiguação da falta, terminando fremente de emoção patriótica.

Várias vezes fomos – o Carlos Couceiro, o Zeca Afonso, o Manel Nemésio, o Zé Guimarães, eu… – tomar banho ao rio (à ínsua, no extremo do Parque da cidade). Em calções de ginástica, ou como viemos ao mundo, com a roupa escondida no canavial da margem. Uma paródia!

O Zé Guimarães, no fim do 6.º ano (1948), desistiu de estudar e regressou a Sá da Bandeira (para despachante de alfândega). Nunca mais soube dele.
Mas eis que 52 anos depois, em 12/10/2000, reencontro o “Penetra”!
Foi na Sociedade da Língua Portuguesa (de que o dr. Carlos Carranca era director), e onde fui apresentar o meu livro “Zeca Afonso Antes do Mito” .
Estava bem longe disso, mas, mal entrei na sala, o Carlos Couceiro veio ter comigo emocionado: «Sabes quem está cá? O “Penetra”! Encontrei-o na rua, casualmente, há dias, falei- -lhe de ti, do livro sobre o Zeca e insisti para que viesse. Está ali, é aquele de barba branca» – e apontou-mo.
Olhei e vi um ancião todo branco (foto anexa, tirada pela Dra. Isabel Garcia, da Minerva), mas ainda desempenado, vestido com esmero, charmoso, que me olhava com um olhar comovido e um sorriso de alma escancarada…
Corri para ele. Que grande abraço!

Fomos para um canto dar uns dedos de conversa. Mas o tempo era escasso: havia a apresentação (anexo), depois o beberete, depois a serenata, jornalistas, muita gente a atender… Mesmo assim, naqueles escassos minutos – numa conversa atropelada – reencontrei o meu tão querido Zé Guimarães. Morava em Almada, tinha estado muito doente (bypass coronário), trazia uma pasta com papéis velhos: fotos do liceu, da malta a tomar banho no rio (foto anexa: S. Silva + Zé G. + M. Nemésio), e cartas do Zeca Afonso (numa delas, o Zeca confessava-lhe o seu amor platónico pela Maria Amália – a sua primeira Mulher – e terminava assim: «Boa noite, Zé! Vou-me deitar, para sonhar com ela»). E ainda teve tempo para me contar a última vez que tinha estado com o Zeca. O Zeca morava relativamente perto dele (em Azeitão) e foi visitá-lo, mas já não teve forças para subir a escada. Então o Zé Guimarães levou-o ao colo. Contou-me isto com lágrimas nos olhos e, enquanto o ouvia, ocorreu-me a lenda de S. Cristóvão (o belo conto de Eça de Queiroz): aquele homenzarrão de força bruta e coração de pomba que levava às costas quem necessitava de passar o rio.

Depois daquele encontro breve, escrevi-lhe algumas cartas, até que ele deixou de me responder. Falei ao Carlos Couceiro que me disse ter-lhe telefonado, também, várias vezes mas que já ninguém atendia (ou o número tinha sido alterado) – estava convencido que teria morrido de doença súbita (coração?).

Foi esta, assim, a derradeira vez que o vi. Mas a impressão que me deixou cimentou a ideia que dele sempre tive: “um bom gigante”. A voz do Povo costuma dizer que “os homens são como o vinho do Porto: quando a cepa é boa, melhoram com a idade”. E é essa a gratificante memória que guardo do Zé Guimarães, o “Penetra”. Paz à sua alma!

1- Vice-chefe o António Costa Lobo, miúdo de corpo mas o melhor aluno da turma – um supremo contraste!

Santos Silva com Zé Guimarães e Manuel Nemésio
(1947/1948)

7 Comments:

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